Compartilhando também os desafios no caminho

Com o apoio da Teia da Sociobiodiversidade e do Fundo Casa Socioambiental, o Portal Mãe Mirra segue implementando ações integradas de educação integral (educação do corpo físico, vital, mental, psíquico e espiritual) e regeneração, fortalecendo vínculos comunitários e práticas agroecológicas no território cacaueiro do sul da Bahia.

Neste mês, decidimos compartilhar não apenas os avanços conquistados, mas também os desafios enfrentados na construção coletiva de um território mais justo, saudável e conectado com os ciclos da natureza. E da importância da perseverança, de seguir um caminho que escolhemos. Lapidando-nos como ser, aspirando o bem-estar.

Atualmente, acompanhamos quatro famílias em diferentes estágios da transição agroecológica. Entre as ações realizadas neste período, destacamos:

  • A produção dos primeiros chocolates artesanais por Anelita, fruto de uma capacitação em beneficiamento de produtos regionais;
  • A realização de um mutirão agroecológico na propriedade de Dona Raimunda, em parceria com a Coletiva Agroecológica,
  • A realização da oficina de Introdução à Sistemas Agroflorestais, marcando o início das atividades da Casa de Farinha como espaço formativo e produtivo; a primeira oficina que tivemos foi com o apoio da Rede Povos da Mata e de Hércules Saar que nos brindou duas formações agroecológicas
  • A delimitação de duas áreas produtivas na Roça do Sr. Roque, com 900 m² cada, onde será realizada adubação orgânica e plantio de espécies de serviço, conforme princípios de sucessão ecológica e diversidade.

Como etapa preparatória para essas intervenções, realizamos também análises de solo que orientarão a escolha e a dosagem dos insumos orgânicos, garantindo maior eficiência no processo de regeneração e cuidado com a fertilidade.

Na Escola Rural Domingos Correia, seguimos com as oficinas de nutrição e alimentação saudável, promovendo diálogos sobre o alimento desde a produção até o preparo, incluindo suas dimensões educativas, afetivas e culturais. O planejamento da horta escolar foi transferido para o início do próximo ano letivo, buscando ampliar o envolvimento da comunidade escolar e permitir uma implementação mais participativa e cuidadosa.


Desafios estruturais e engajamento comunitário

Apesar dos avanços, seguimos enfrentando desafios estruturais recorrentes, especialmente relacionados às condições econômicas das famílias agricultoras. A agroecologia é altamente valorizada e buscada por muitas pessoas do campo, especialmente por mulheres, jovens e pequenos produtores. Mas o que se percebe – e que merece ser reconhecido – é que esse gosto pela agroecologia nasce do coração, de um sentimento profundo de cuidado com o lar e com o território.

A maioria da população local demonstra incômodo e tristeza diante da degradação ambiental: há dor ao ver a vida se perdendo, o solo empobrecido, os rios adoecidos. Ao mesmo tempo, existe um prazer sincero em cuidar das árvores, preservar espécies importantes da região, preparar o próprio alimento e manter modos de vida que integram a natureza à vida cotidiana. Esse interesse é legítimo e vivo.

Entretanto, as desigualdades socioeconômicas ainda impõem barreiras concretas à adoção de práticas sustentáveis. A necessidade de gerar renda imediata, somada à escassez de políticas públicas consistentes de apoio à transição agroecológica, limita os tempos e condições para formação, planejamento e implementação dos sistemas regenerativos.

Mesmo com o crescimento do interesse pela agroecologia, os incentivos públicos ainda priorizam modelos baseados no uso de herbicidas e pesticidas, que comprometem a saúde dos territórios e seus habitantes. Apesar disso, começamos a perceber pequenos sinais de mudança, como o próprio apoio recebido pelo projeto através do Fundo Casa Socioambiental, financiado por recursos da Caixa Econômica Federal. Essa iniciativa sinaliza uma possível abertura institucional para reconhecer e apoiar formas de produção e cuidado mais integradas e sustentáveis.

No que diz respeito ao community engagement, os desafios também são constantes. A maioria das pessoas precisa trabalhar de forma contínua para garantir o sustento, o que reduz a disponibilidade para participação em mutirões, oficinas e formações. No entanto, temos percebido que espaços comuns como a Casa de Farinha e a escola têm desempenhado um papel fundamental para a escuta, o acolhimento e a mobilização comunitária. São lugares onde as experiências se encontram, as histórias circulam e as ações coletivas se fortalecem.

Transparência, vínculos e fortalecimento institucional

Além dos desafios técnicos e econômicos, temos enfrentado também questões sensíveis no campo das relações humanas e da construção institucional. Ao buscar consolidar uma associação comunitária pautada na transparência e no compromisso coletivo, nos deparamos com questionamentos legítimos sobre o uso dos recursos e sobre a forma como os benefícios do projeto se manifestam na vida concreta das pessoas.

Frases como “Até agora não vi dinheiro nenhum chegar na minha mão, né?” ou “Esse dinheiro do projeto eu posso dar para minha mãe?” revelam um sentimento compreensível: o de que, diante da necessidade imediata de sobrevivência, o projeto precisa resultar em retorno financeiro direto e rápido. Não se trata apenas de dúvida ou desconfiança — mas de uma realidade em que o alimento, o gás, o remédio e o transporte são urgentes e, muitas vezes, escassos.

Esse cenário nos convida a refletir sobre o descompasso entre os tempos dos projetos socioambientais e os tempos das urgências econômicas das famílias. Muitos ainda não conseguem visualizar a aplicação do recurso como um processo de médio e longo prazo, voltado à formação, à estruturação de sistemas produtivos sustentáveis e à construção de autonomia coletiva.

E, naturalmente, em meio a esses desafios, surgem também tensões interpessoais, como falas atravessadas, mal-entendidos, inseguranças, ciúmes. São expressões da complexidade das relações humanas, especialmente quando nos propomos a construir algo em grupo. Por isso, temos compreendido que o fortalecimento da estrutura institucional e dos nossos princípios coletivos é tão importante quanto as ações em campo.

Construir uma associação viva, ética e transparente exige escuta constante, espaços de diálogo, cuidado com os vínculos e clareza sobre os propósitos. Estamos comprometidas com esse processo e, mesmo diante das dificuldades, seguimos firmes no propósito de tecer relações pautadas na confiança, na solidariedade e no bem comum.

Verdade, confiança e fortalecimento institucional

Além dos desafios externos, também enfrentamos questões internas, humanas e organizacionais. Ao tentar construir uma associação comunitária transparente e ética, surgem dúvidas legítimas, desconfianças, ruídos e tensões interpessoais.

Em um cenário marcado por carências e desigualdades, é comum que surjam comentários atravessados, inseguranças, ciúmes, falas por trás. São expressões da complexidade das relações humanas. Muitas vezes, é difícil para as pessoas entenderem que um projeto como este trabalha com processos estruturantes e coletivos, e não com distribuição direta de recursos individuais.

Diante disso, reafirmamos a importância de fortalecer nossa estrutura institucional com base em princípios éticos claros e vividos. Queremos criar um ambiente onde seja possível confiar, e para isso é necessário falar a verdade, não tomar o que é do outro, não alimentar fofocas, escutar com empatia e agir com transparência. Essas são ações que cultivamos internamente para nos manter firmes no caminho e amadurecer como grupo.


Nossos princípios

The Portal Mãe Mirra é um campo de recolhimento, regeneração e despertar. Servimos como laboratório de práticas espirituais e materiais a serviço do desenvolvimento da consciência.

Nossos valores orientadores são:

  • Sinceridade / Verdade – alinhar pensamento, fala e ação com a verdade interior
  • Equanimidade – transcender a dualidade
  • Coragem e Esforço – agir com firmeza e presença
  • Perseverança e Determinação – manter-se no caminho
  • Amor-bondade – presença amorosa com todos os seres
  • Amor compassivo – acolher a dor com ternura e sabedoria
  • Humildade / Renúncia – abandonar o orgulho e o egoísmo
  • Paciência – respeitar o ritmo de cada processo
  • Aspiração e Sabedoria
  • Receptividade
  • Gratidão – honrar tudo o que nos sustenta
  • Generosidade – partilhar sem esperar retorno

Acreditamos que é com esses valores vivos nas relações que conseguimos atravessar os desafios das organizações comunitárias, cultivar confiança, fortalecer vínculos e sustentar um caminho de cuidado com a terra, os corpos e as relações.


Caminhos que seguimos construindo

Seguimos, portanto, com confiança e escuta atenta. Cada mutirão, cada reunião e cada pequena decisão cotidiana se torna também um ato de resistência e reconstrução do tecido comunitário. Seguimos semeando autonomia, pertencimento e cuidado.

Nosso trabalho está articulado com diversas parcerias, como a Secretaria de Educação de Itacaré, o Armazém Comunitário Araçá, o Observatório da UESC, a Coletiva Agroecológica, o projeto Mimos da Mata, Abuelitas Cacau, além de educadoras, agricultoras e iniciativas locais que compartilham conosco o compromisso com a regeneração da terra, dos corpos e das relações.

Para conhecer mais sobre o projeto ou contribuir com o fortalecimento das ações do Portal Mãe Mirra, acesse nosso site e faça parte desta rede de cuidado e transformação.

Portal Mãe Mirra
Núcleo de Desenvolvimento da Consciência Humana
www.portalmaemirra.org

Published by portalmãemirra

We are a center for community coexistence and awareness development, and our initiatives are based on the practical philosophy of Integral Yoga, the principles of Integral Education (proposed by Mirra Alfassa, the Mother) and the sustainability precepts of Agroecology, Permaculture and knowledge. ancestors of the land of native peoples.

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