Em alguns eventos da minha vida, a experiência precedeu a compreensão intelectual. Por exemplo, nas práticas de Nāda Yoga, ao escutar meu som interno, escutava grilos na cabeça. Posteriormente, encontrei no Gheranda Samhita uma descrição sobre os sons que escutamos dependendo de onde está a kundalini:
“Num lugar tranquilo, onde não haja sons de animais ou outros sons; o yogin pratica Puraka e Kumbhaka, fechando os ouvidos com as mãos (…). Ele ouvirá, então, vários sons internos diretamente aos seus ouvidos. O primeiro som será dos grilos e, sucessivamente, da flauta, do trovão, do tambor, do escaravelho, de sinos, de gongos, dos sinos de metal, de clarins, etc)(…) Estes vários sons apresentam-se pela prática diária de Kumbhaka. O último de todos é o som do Anāhata, nascido do coração, que produz uma ressonância e se faz a Luz. Nesta Luz a mente será mergulhada. Quando a mente é absorvida, então, alcança-se o lugar mais alto como Vishnu. (parama-Pāda). Aquele que é bem sucedido neste Bhrâmari Kumbhaka, será igualmente no Samâdhi (…) É recomendável, neste prāṇāyāma, reter o “sopro, em Antara Kumbhaka, executando Sanmukhi-Mudrā sem Jālandhara-Bandha, podendo assim ouvir os sons do Anāhata”
O som do Mooladhara chakra é de grilos.
Outra experiência que precedeu o estudo intelectual foi com o Tamas prāṇāyāma. Para a realização desse prāṇāyāma, aprendi a visualizar uma pena branca embaixo do nariz e tentá-la mover o menos possível, deixando a respiração a mais sutil possível. Brinquei de levar essa respiração sutil para o coração. Senti algumas vezes uma bolha se abrindo no coração e uma ligeira sesanção de “Respirar pelo coração”. Descobri posteriormente que existe um fenômeno muito similar chamado “stambha’ vrrti”.
Quando jejuei por primeira vez por 21 dias, senti que várias apreensões que eu tive a nível intelectual chegaram no nível da experiência, principalmente no que se refere a essa fluido de consciência “ego”, ou como Ahamkara se manifesta nos diferentes níveis de densidade do nosso corpo. O ato de jejuar, ou de decidir se alimentar de prāṇā, cortar o “fundamental” aparente do vital que é a comida, obriga a consciência a jogar com a lei da natureza da sobrevivência. Lutamos e lutamos por sobreviver e nos deparamos no final da vida com o maior paradoxo possível: não há saída, morreremos. Morremos mesmo? Ou apenas a Vida se transforma? E conseguimos a partir desse instante ascender a Vida do corpo físico, ao um estado vital mais consciente?
Jejuar movimenta os fluxos vitais. E movimenta também o fluido de consciência que chamamos “ego”. Na cosmovisão proposta pela corrente filosófico do “Samkhya”, temos Purusha e Prakrti, Buddhi (a consciência cósmica, o ato de escolher, decidir), Ahamkara (a senso de Identidade), e logo Panchamahabhuta, começam-se os sentidos, sentir, etc.
Patanjali descreve no capítulo 1 dos Yogasutras, diferentes estados de consciência até chegar no Samadhi sem semente, nirbijam samadhi.
Samadhi sempre me pareceu um conceito abstrato e muito distante da minha realidade corpórea e egoica. Somente compreendendo que existem níveis anteriores, nos quais a mente faz associações a objetos conceituais e, somente depois, essas associações vão se dissolvendo, que eu senti que eu tinha algum caminho a seguir. Um caminho do tamanho perfeito para meu passo.
Durante o processo de 21 dias, também nos é apresentando o conceito de “Eu Superior”, que até um tempo atrás, também era para mim um mero conceito, não conseguia experenciar isso de forma consciente. E aqui, pude sentir como o “equilíbrio” de nossa Mente pode ser deslocada para uma “Consciência Superior”. Isso aconteceu na forma como eu me identificava com as coisas.
Houveram dois fenômenos concomitantes nesse processo:
1. O distanciamento do “ego” no plano do mental, emocional, vital e físico. No meu caso, eu optei por principalmente tirar minha identidade da mente. Acredito, pela minha experiência, que essa noção de “Sujeito”, de “Observador”, ainda exista num plano da consciência superior à mente, mas de forma muito sutil. Isto é, o fluido de consciência egoica continua existindo para além da mente, porém, num nível muito mais sutil. Alguns momentos, senti um estado de vacuidade, mas ainda não totalmente desvinculado de Ahamkara.
2. O segundo fenômeno, são as transmutações em todos os níveis de densidade do corpo. Ou seja, quando nos abrimos a migrar nossa identidade como sendo do “Eu Superior”, acontece inclusive uma mudança física em nosso corpo.
Quando deslocamos esse “equilíbrio” de identidade (podemos dizer, Ahamkara), para um nível mais “sutil”, isso implica também que estamos transcendendo a dualidade, as experiências de “prazer e dor”. É um círculo que se alimenta: ter pensamentos e emoções não aflitivas apoiam o corpo como um todo a buscar esse estado mais sutil. Por sua vez, esse estado sutil auxilia a transcender as experiências de prazer e dor nos níveis mais densos. Essa última auxilia nas emoções e pensamentos de Alegria e Amor, e assim por diante. Podemos visualizar duas correntes, uma que sobe e outra que desce, e as duas se auxiliam mutuamente.
No nível físico, Ahamkara e Buddhi estão a nível celular. Num embrião, as células se diferenciam e “escolhem” , sabem a posição delas. Senti uma mudança mais densa e óbvia, minhas articulações fluidas e a elasticidade- que não foram só a ausência de sal, mas a limpeza das minhas emoções e águas paradas. Meu intestino teve o tempo dele para curar. A nível celular, intensionei que cada célula se identificasse com “Deus”, com a Presença Divina.
A nível vital, o primeiro estágio foi um apaziguamento do vital e, hoje, uma energia vital também direcionada e orientada.
No plano emocional e mental, além de perceber um estado de consciência maior nas emoções e pensamentos, sinto que elas estão em geral mais positivas. Ou seja, em alguns momentos transcende um pouco a dualidade fenomenológica e, em outros, sinto uma positividade e alegria maior – talvez seja o que tanto falam sobre Ananda. Um alimenta o outro (igual a luz com seu campo elétrico e magnético que se auto-alimentam com suas variações).
É mágico poder observar de forma consciente essa transição. Não é um estado corpóreo, denso, com identidade aparente independente que pronto migra a estado de Unidade e Multiplicidade em movimento (tudo ao mesmo tempo) de uma hora para outra. É um processo gradual, cores de um arco-íris que vão mudando sua frequência lentamente.
No plano material, a experiência da vida vai se tornando mais sutil, alegre, amorosa e com maior facilidade de migrar aos estados alterados de consciência, com a percepção da Natureza, sendo cada vez mais, menos oculta pelo véu da percepção mental. E como é importante a Mente nesse processo de Evolução, pois a compreensão intelectual dá uma base estável e duradoura para o campo de experiências que transcende o mundo fenomenológico e conceitual.
Sinto que minhas células mudaram o senso de identidade delas. Somos o que comemos e o alimento é o cheiro do manacá, luz do Sol, luz da Lua, amor, compaixão, paciência e paz. As células todas do corpo começam a te possibilitar o Estado de Presença Divina, e esse, por sua vez, quando retornamos ao estado de percepção da realidade através do plano mente e, portanto, mais dual, a vida se torna um Deleite, Amor e Compaixão em sua essência mais pura. É muito gostoso sentir o espaço vazio entre os átomos e como tudo dança um baile colorido.

