अथ योगानुशासनम्॥१॥
Atha yogānuśāsanam||1||
E agora começa (atha) a instrução (anuśāsanam) acerca do Yoga (yoga)||1||
O primeiro sutra do primeiro capítulo dos Yogasutras começa com a resposta, o segredo para o estado de liberdade. Claro, a chave para abrir essa porta é todo um caminho, orientações e práticas. Afinal, entrar no estado de presença num momento onde o inconsciente coletivo vive num estado no qual as atividades mentais (vrtti-s) se tornaram algo difíceis de controlar (você consegue ficar sem pensar?), é um desafio.
Atha, agora, refere-se à atenção plena, entrega completa. É o que temos nesse momento. O passado é uma memória (distorcida pelos invólucros mentais) e o futuro existe apenas como uma possibilidade. Quando aprendemos a prestar atenção ao presente, podemos nos libertar dos sofrimentos do passado e também nos libertar dos sofrimentos em decorrência das projeções que fazemos sobre o futuro.
योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः॥२॥
Yogaścittavṛttinirodhaḥ||2||
Yoga (yogaḥ) é a supressão (nirodhaḥ) das modificações (vṛtti) mentais (citta)||2||
E quais são as atividades da mente?
- Pramana: percepção correta
- Viparyaya: percepção incorreta
- Vikalpa: imaginação
- Nidra: sono profundo
- Smrti: memória
Dentro da prática de yoga, essas atividades da mente necessitam ser direcionadas a um objeto por um determinado período de tempo: recolhimento das atividades mentais.
Quais são as consequências das vrttis?
O primeiro dele é conhecido em sânscrito por KLISTA: ações que geram sofrimento na mente. O segundo é AKLISTA , (a)klista: ações não dolorosas.
O primeiro objetivo, ao se praticar yoga é mover as ações de klista para aklista.
Quando refinamos nossa mente, tornando-a capaz de se focar no momento presente por um determinado período de tempo, temos
तदा द्रष्टुः स्वरूपेऽवस्थानम्॥३॥
Tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam||3||
Então (tadā), há permanência (avasthānam) na natureza essencial (sva-rūpe) do Observador (draṣṭuḥ)||3||
Durante um determinado período de tempo, a mente pode adquirir uma capacidade diferente: ela brilha como um cristal. Em seu funcionamento final e mais refinado, a mente se torna um espelho perfeito de Puruśa, um espelho no qual o Self é refletido. A mente reflete o Divino em sua essência.
Contudo, a mente é revestida por muitos véus, os véus dos pensamentos:
वृत्तिसारूप्यमितरत्र॥४॥
Vṛttisārūpyamitaratra||4||
Em outras ocasiões (itaratra), há identidade (sārūpyam) (entre o Observador e) as modificações (da mente) (vṛtti)||4||
Essa é nossa realidade quando o predomínio de energia está no estado mental, num estado mental que se tornou descontrolado e, além disso, as faculdades mentais, as vrttis, elas funcionam, na maioria do tempo, ou no passado, ou no futuro (uma percepção correta, seguida de um entendimento sobre essa percepção, imaginação e projeção sobre o futuro, memória, etc). Nesse contexto, facilmente a mente é levada para a Natureza da preocupação, ao invés de ancorá-la na Natureza da tranquilidade. Essas nuvens, que causam sofrimento, são conhecidas como citta viksepa.
Como migramos de klista para aklista?
Duas práticas concomitantes e retro-alimentadora:
Abhyasa : comprometimento, esforço para determinada causa, prática
Vairagya : desapego
Ambas, juntas, operam como as asas de um pássaro ou como o campo magnético e elétrico da luz, cada uma alimentando e suportando a outra. Quando elas estão presente, os véus mentais começam a diminuir, os aspectos rajásicos e tamásicos também, e os aspectos sattvícos começam a aumentar.
A mente possui não somente um objeto, mas vários deles, com nuvens. Junto com eles, muitas emoções, muitos pensamentos. São véus que nos bloqueiam de ver a realidade a partir de uma Consciência para além da nossa existência egóica, nos bloqueiam de ver o Self. Através da prática de abhyasa e vairagya, é possível transcender e vibrar em determinado estado.

Conforme podemos ver na figura acima, quando a mente observa um objeto, ela o faz através dos nossos 5 sentidos. Os nosso sentidos vão enviar informações para a Hipófise e o Hipotálamo, que por sua vez enviarão células neuro-transmissoras ou hormônios por todo nosso corpo. O que isso quer dizer? Que cada pessoa sente uma sensação diferente ao ver determinado objeto. O mesmo objeto é visto de forma diferente por cada um. Podemos dizer que o citado acima, são as “nuvens” mentais. A prática de vairagya e abhyasa nos leva a conseguir remover os véus e nuvens mentais, seria o véu da Ignorância, aquela Ignorância de enxergar o objeto somente por sua perspectiva subjetiva. Um estado de consciência Superior, nos faria enxergar esse mesmo objeto por uma perspectiva universal e não individual. Curiosamente, segundo a tradição do yoga, perceber um objeto tal qual ele é, também implica que isso é realizado sem nenhuma projeção do passado ou futuro.
Aqui começa o estado de meditação, dhyana.
Passando para o sutra 1.17:
वितर्कविचारानन्दास्मितारूपानुगमात् संप्रज्ञातः ॥ १.१७॥
vitarkavicārānandāsmitārūpānugamāt saṃprajñātaḥ || 1.17||
Quatro tipos de consciência se desenvolvem através de vairagya e abhyasa. Nesse estado, ainda é feita uma distinção entre o que vê e o que é visto, essa “fase”, constituída por esses 4 estados é denominada: samprajnata. Os 4 estados são:
- Vitarka: absorção da consciência, absorção na análise, conseguida por meio do envolvimento em conjecturas, inferências e estudos analíticos; que pode ser dividido em savitarka e nirvitarka;
- Vicara: síntese, absorção no raciocínio, consideração e discriminação, podendo dividí-lo em savicara e nirvicara;
- Ananda: felicidade, estado de bem-aventurança;
- Asmitarupa : e um estado de puro ser, estado de “eu” um consigo mesmo
Podemos entender esses estágios como progressões na capacidade mental, de compreender a realidade – realidade inicialmente revestida por todos os samsaras.
Vitarka é um ato de envolvimento por pensamento calculado e estudo, que leva ao ponto final ou causa raiz. É uma tentativa de diferenciar a causa do efeito, um processo de pesquisa experimental astuta do grosseiro ao sutil. A análise intelectual, vitarka samprajnata, sendo uma função do cérebro, gera conhecimento relativo e condicionado. É grosseiro e deficiente em refinamento. É ainda dividido em deliberação, savitarka e não deliberação, nirvitarka.
Nesse estágio inicial, savitarka, existe um plano de fundo, um contexto por trás da apreensão da realidade. Nesse estado, é possível lembrar o nome, a função, o propósito e a imagem de determinado objeto, ou seja, se é experenciado o objeto em um nível denso. Posteriormente, começa-se a perceber o objeto sem os véus da memória. É quando nos movemos para o estado de nirvitarka. A divisão entre savitarka e nirvitarka está associada à deliberação. Um possui deliberação, o outro não.
A Vicara é sinônimo de conhecimento diferenciador. É um processo de investigação, reflexão e consideração através do qual o cérebro conjectural errante é silenciado e o sadhaka desenvolve profundidade mental, agudeza, refinamento e sutileza. Vicara também se subdivide em raciocínio, savicara e não-raciocínio, nirvicara. Logo, o estado de savicara, no qual nenhum plano de fundo (nome, propósito) existe. E por fim, nirvicara. Aqui, inclusive condições de espaço e tempo começam a desaparecer e, de pouquinho em pouquinho, começamos a perceber os objetos em sua forma mais profunda e sutil, no estado de tanmatra 1
A partir daí, a mente começa a experienciar o estado Ananda, a Bem-Aventurança, Alegria profundas, com dominância do aspecto de Sattva.
No estado de Asmitarupa começa-se a ser muito difícil de diferenciar a forma da mente e a forma do objeto. À medida que o crescente corpo de experiência transmite maturidade, a realização é alcançada e um estado de êxtase, ananda, resulta, liberando o sadhaka do mecanismo de estudo, investigação e realização e levando-o a residir no eu sozinho
A forma da mente e objeto, no entanto, são mutáveis porque a mente é parte da matéria. Aqui voltamos para um tema muito importante: o estado de meditação não é a supressão de pensamentos e, sim o domínio das atividades mentais. Retornamos aqui ao sutra 2 do primeiro capítulo, no qual Patanjali não da muito abertura para a definição do yoga: Yogaścittavṛttinirodhaḥ||2||
Percebemos que as gradações dos estados de consciência partem do grosseiro ao sutil: Savitarka e nirvitarka samadhi pertencem à função da matéria, representada pelo cérebro, e são alcançados pela ruminação de elementos grosseiros e objetos cognoscíveis através dos sentidos. Savicara e nirvicara samadhi pertencem ao território da mente e são alcançados pela contemplação de elementos sutis, e ananda pertence ao território da inteligência madura. Ananda deve ser atribuída não aos sentidos, mas à sabedoria pura. A contemplação pelo eu do eu aproxima a pessoa de purusa.
“Supõe-se que a frente do cérebro é a parte analítica (savitarka), enquanto a parte de trás do cérebro é a antiga área de raciocínio (savicara). A base do cérebro é a sede de ananda, e a coroa da cabeça do eu individual, asmita. O Sabija samadhi é realizado atraindo essas quatro facetas do cérebro em direção ao seu tronco. Quando essa sincronização é alcançada, um estado passageiro de quietude, manolaya, é experimentado. Então, do tronco do cérebro, a consciência é levada para a mente-fonte, a sede do coração. Aqui ele se une em um estado de ser sem mente, sem começo e sem fim – amanas-katva, ou nirbija samadhi (samadhi sem semente ou suporte). É a conquista do espírito.” (B.K.S, Iyengar)
Ou seja, de Asmitarupa, somos conduzidos ao estado asamprajnata (nirshamadhi), samadhi sem semente. E a mente se move em direção ao atma – draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam – e o objeto e o observador tornam-se a mesma coisa. (Procure visualizar você vendo uma vela, e vela te observando, e ambos vêem a mesma coisa).
Iyengar faz um leve paralelo entre a teoria vista acima e a prática de ásanas:
“Patanjali geralmente aborda vários níveis ao mesmo tempo, portanto, não é irracional explicar vitarka, vicara, ananda e asmita em relação ao asana. Quando se começa a praticar asana, o método geral é em grande parte acertar ou errar – ‘deixe-me tentar isso; deixe-me tentar isso’. É um processo de tentativa e erro baseado em hipóteses. Essa é a natureza de vitarka. É mais aventureiro do que calculista, mas não esquece seus defeitos; então evolui-se para o estágio que poderíamos chamar de vicara – onde um corpo de experiência foi construído a partir de investigação, consideração madura e discriminação nascente. À medida que os asanas amadurecem, ele ou ela atinge um estágio em que a consciência da pele prossegue em direção ao centro do ser, e o centro irradia em direção à margem. O movimento é centrípeto e centrífugo. Essa integridade traz felicidade – ananda. Eventualmente, quando o mecanismo consciente pelo qual se considera e realiza asanas chega ao fim, o processo atinge um ponto de descanso. O asana então repousa apenas no eu interior que está em equilíbrio – o único suporte é o asmita“
No nível final, a mente espelha o Puruśa, a mais pura consciência e, a partir daí, não há mais estados. Chegamos ao estado de Kaivalyam.
Definir em palavras os estados Divinos, pode-se dizer, que é impossível. Seria a tentativa de representar o infinito no finito, a Unidade na Multiplicidade, a ausência de ordem, o caos de variações de possibilidades nos agrupamentos complexos e conscientes. Pode ser uma das razões pelas quais os textos espiritualistas budistas, yogicos e outras linhas filosóficos que buscaram a compreensão do microcosmos no macrocosmos, sejam repletos de poesias, metáforas, subjetividades e universalidades.
- Para mais informações sobre tanmatras, busque sobre o Samkhya Yoga ou Tantra Yoga, atentando-se para a sua cosmovisão
Referências bibliográficas :
Wisdom Library. Disponível em: <https://www.wisdomlib.org/hinduism/book/yoga-sutras-study/d/doc628703.html>. Acesso em 12 de dezembro de 2021
B.K.S Iyengar, Light on the Yoga Sutras of Patanjali , Harper Collins, UK, 2012 Disponível em: <https://www.themathesontrust.org/papers/hinduism/Patanjali-Iyengar-Part_1.pdf>. Acesso em 12 de dezembro de 2021

