As espirais da vida são muitas, muitas vezes parece que damos voltas e voltas e voltamos para “quase o mesmo lugar”, é um lugar muito parecido a outro de outro momento, porém com um toque de Conhecimento a mais. Quando voltamos para esses lugares, é quando podemos observar os nossos padrões, e utilizar do nosso Karma (ação) para transmutar. Como uma lagarta que vira borboleta.
No processo de 21 dias, na primeira semana nenhum alimento é ingerido, então, se desloca toda aquela energia do intestino – antes intencionada ao processo de digestão- para o coração e para a cabeça. Bom, essa foi a sensação experenciada por mim, Apesar de sentir que até meu pulmão estava comprimido e meu fluxo de respiração dava conta de muito menos ar, sentia com mais facilidade os fluxos sutis do meu corpo. Entrava em estado de meditação com muito mais facilidade, podia sentir as vibrações por todos os lados chegando, saindo, entrando, fluindo.
Na terceira semana, ao ingressar com o suco de banana diluído a 40%, o meu ego mental recebeu a dose de alegria necessária para começar a tagarelar novamente. Me assustei com tanto papo (em pensamento, pois o retiro o fazemos em silêncio). E foi logo, nos momentos em que tentei meditar, que voltei ao tempo e me senti na primeira meditação que havia feito, onde tremia de tanto lutar contra meus pensamentos. Afinal, descobri que meditar não se tratava de não pensar e sim, ter controle sobre as atividades mentais. Dessa vez não tremi, nem lutei com meus pensamentos. É difícil saber explicar o que me levou a essa viagem no tempo, acredito que foram as sensações mesmo. Me senti contenta em ver que a espiral era a mesma, mas num lugar diferente, parecia um lugar com um pouquinho mais de luz, de mais serenidade, de ver os pensamentos como um rio, como notas musicais. Sem lutar contra nenhum, somente observando-os e deixando o intervalo entre as notas mais intenso e silencioso.

Recentemente, ao começar a montar a primeira vivência de bioconstrução do espaço, experenciei uma outra espiral, onde há alguns anos, participei, com muito amor, de uma oficina de bioconstrução na Casa do Protetor em Marcahuasi-Peru. Lá, conheci a um grupo muito peculiar, que se auto-denominavam “Selvagens” (em espanhol, Salvajes).
Os salvajes eram um grupo de muitos humanos, golfinhos, gorilas, macacos, mariposas , árvores e luzes que tive a honra de conhecer. Na sua primeira formação, esse grupo era formado por Mauricio Arnillas, meu eterno mestre na bioconstrução. Sua forma de falar sobre bioconstrução era carregada de tanto entusiasmo, que seus olhos literalmente brilhavam. Cada aula com ele me enchia de energia, de convicção. Era isso! Ele era convicto de que a bioconstrução era um caminho de liberdade.
Havia também Gabriel, um ser muito discreto, com um olhar cheio de paz, a mente a mil. Carrega sempre um livro (um livro gigante) por onde vai. Diego, (!!!!!) tecedor por essência, o olhar de lua crescente profundo. Escutar-lhe falar me acalma e enche meu coração de paz. Quevi, que me tirava risadas de dentro cada vez que falava algo. A vida perto de Quevi fica muito divertida.
Lauren, uma mulher serena e firme. Carregava uma doçura e ao mesmo tempo um poder de sustentação/força/estrutura muito impressionantes. JP, uma caixa de mistérios. Acho que para conhecê-lo ou saber falar algo sobre ele, são necessários anos, onde pouco a pouco ele vai soltando seus segredos.
Esse grupo tinha uma missão: viajar difundindo conhecimento, apoiando na construção de uma nova terra, uma nova era. São como pequenas borboletas tecedoras, vão colhendo o polén de algumas flores e deixam rastros de luz por onde passam. Esses rastros vão formando um bordado, uma rede. Rede de vida, de conhecimento. Aquele conhecimento da nossa conexão com a Terra, de recordar de onde viemos, o que estamos fazendo nesse planeta e para onde vamos. Obviamente que fiquei muito entusiasmada em ser uma “selvagem” também. A vida me trouxe Maria e assim, apesar de já me sentir salvaje, tirei minha licença maternidade por algum tempo. Enquanto estive em meu casulo, vi essa rede crescer. Vi até Hélene, Gerther, Paul e Brunelle virarem “Salvajes”.
Ao começar a estruturar todo o projeto aqui do Portal, pedimos apoio ao grupo “Salvaje”, representado por Diego, para o desenho permacultural. Novamente, foi um processo de muito aprendizado. Cada vez que eu chegava com ideias pré-moldadas ou com um vento forte, Diego reconstruía ideias e desenhos com a gente e ,também, somente por sua forma de conduzir, de ser e de falar, me fazia lembrar que além de vento forte, a natureza tem uma brisa suave, tem o sol da manhã, tem o canto de passarinhos. E tudo era possível ser criado com paciência.
Passado um tempo, Diego, como uma boa e bela lagarta, entrou em seu casulo para transformar-se em uma exuberante borboleta. Por um tempo, me senti perdida frente a tantas atividades a serem executadas e, principalmente, executá-las sem ter os conselhos/recomendações de Diego. Como estruturar o espaço, hortas, agrofloresta, casa de ferramentas, gestão de voluntariado, acordos de convivência, produção de germinados, cosméticos??
Passamos um tempo, eu e Kaliah, organizando o que somos, nossos núcleos, os objetivos de cada núcleo. Tentei, nesse período, organizar todos conhecimentos “meio intuitivos” que tinha sobre permacultura. O que sabia sobre permacultura era muito mais prático e experenciável do que realmente algo que eu tivesse sistematizado e organizado em desenhos de palavras.
Na mesma saga de buscar notícias sobre a borboleta Diego, algo de muita sorte aconteceu. Esse grupo de humanos, golfinhos, gorilas, macacos, mariposas , árvores e luzes, ao sair por aí colhendo pólen de luz e levando de um lado a outro em um tecido luminoso, tinham também um pote de mel. Não era uma mel normal, era um mel muuuuito colorido, daqueles que se encontra no fim de um arco-íris: eram as experiências e aprendizados que iam tendo por onde passavam. Como ia encontrar esse pote de mel? Fui até o fim do arco-íris e descobri que esse pote de mel era um site. E ual! Ao mergulhar um pouquinho nesse pote de mel, descobri que estava lá toda a informação que eu precisava e mais: compilada e expressada a partir do coração.
Fui magnetizada por uma publicação, chamada Fluir. Ao ler, tive novamente certeza que as coincidências da vida não são tão coincidências assim. Estava refletindo muito sobre fluir nos últimos tempos e me deparar com esse texto abriu-me uma nova perspectiva sobre o rio da vida.
Qual a importância de tecer? Todos já devem ter experenciado de alguma forma ou de outra a frequência natural de ressonância de algum material. Geralmente se explica esse fenômeno com a cantora de ópera capaz de quebrar um vidro. Cada elemento possui uma frequência natural de vibração, quando a nota desse elemento é tocada, esse elemento começa a vibrar. Podemos ver o efeito da ressonância também num violão. Basta tocar uma única corda, todas as outras vão vibrar, nem que seja um pouquinho. Tecer fortalece nosso campo de ressonância, de fazer vibrar uma determinada força, uma determinada energia.
E são inúmeros os “modos vibracionais” que podemos entrar. Um exemplo, temos uma molécula de água, com um oxigênio no meio e duas moléculas de hidrogênio localizadas um pouco abaixo, conforme a figura abaixo. Os químicos/alquimistas decidiram classificar as moléculas dos elementos de acordo com sua geometria e, descobriram que, curiosamente, cada geometria molecular possuía graus de liberdade de vibração e movimento (também podemos ver isso na figura abaixo). A molécula de água pode vibrar de várias formas, ela pode girar, as moléculas de hidrogênio podem sacudir pra trás e pra dentro na direção do oxigênio, etc. Ao realizarem experimentos com luz nessas moléculas, verificaram que a luz reagia de forma diferente dependendo do tipo de vibração que a molécula toma.


Tecer fortalece um campo de vibração e, nesse caso, los “Salvaje” vibram as forças da natureza agindo sobre nós, e nossa tentativa de (re)aprender a viver em harmonia com a Mãe Terra. São tantas formas possíveis de se aprender e cada ser guarda uma potencialidade intrínseca: pode ser com livro, com música, com uma fotografia, um sorriso, uma dança, um jardim.
Documentar o processo é um dos canais- nesse mundo agora também virtual- de se transmitir conhecimento para além de países, de números, de grupos e de pessoas.

Quem diria, que depois de anos, tamanha fonte de ouro iria chegar até nós.
E agora, com o projeto um pouquinho mais encaminhado, volto na espiral da vida. Aquele tempo onde eu quis ser “Salvaje”.

Foto de Lu Bertarelli
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