Agenda Vol. I – Introdução (por Satprem)

Quando tivermos passado além da humanidade,

 então seremos o homem.

Sri Aurobindo[K1] 

Esta AGENDA … Um dia, outra espécie entre os homens irá se debruçar sobre este documento fabuloso, como no drama tumultuoso que deve ter cercado o nascimento do primeiro homem entre as hordas hostis dos hominídeos que vieram antes.

Um primeiro homem é a perigosa contradição de uma certa lógica anterior, uma ameaça à ordem estabelecida – e, para começar, nem sequer sabe que é um homem. Ele se pergunta, de fato, o que é. Até para si mesmo é estranho, angustiante. Não sabe nem mesmo subir em árvores da maneira usual – e é terrivelmente perturbador para todos aqueles que ainda escalam árvores do jeito antigo e milenar. Talvez seja mesmo uma heresia. A menos que seja algum distúrbio cerebral? Um primeiro homem em sua pequena clareira tinha que ter muita coragem. Mesmo essa pequena clareira não era mais tão segura. Um primeiro homem é uma pergunta perpétua. O que eu sou, então, no meio de tudo isso? E onde está minha lei? Qual é a lei? E se não houvesse mais leis?… Isso é aterrorizante. Um pequeno ponto encolhido no centro da grande clareira do mundo. Mas o que é tudo isso, e se eu fosse “louco”? E então, garras ao redor, muitas garras contra essa criatura incomum. Um primeiro homem … está muito sozinho. Ele é bastante intolerável pela “razão” pré-humana. E as tribos vizinhas rugiam como macacos vermelhos no crepúsculo.

De repente, era absolutamente novo ser um homem entre as cascatas de diorito e as lindas cobras corais vermelho e pretas deslizando sob as folhas. Era ainda mais extraordinário ser um homem do que jamais nossas antigas tribos inveteradas. Ele fluía de outra forma, parecia diferente. “Entendeu” de uma maneira muito diferente. Entender era estar em tudo. Apenas um tremor, e ele estava na pele de uma pequena iguana em perigo. A pele do mundo era muito vasta. Ser homem depois de redescobrir um milhão de anos era misteriosamente como ser algo ainda além do homem, uma possibilidade estranha e inacabada que também poderia ser todo tipo de outras coisas. Não estava no dicionário, era fluido e ilimitado – tornara-se um homem pelo hábito, mas, na verdade, era formidavelmente puro, como se todas as velhas leis pertencessem aos bárbaros retardatários. Então outras luas começaram a girar através dos céus até o grito das araras ao pôr-do-sol, outro ritmo nasceu que estava estranhamente sintonizado com o ritmo de tudo, fazendo um único fluxo do mundo, e lá fomos nós, levemente, como se o corpo nunca tivesse tido outro peso além do nosso pensamento humano; e as estrelas estavam tão perto, até mesmo os gigantes aviões rugindo acima da cabeça pareciam vaidosos artifícios sob galáxias sorridentes. Um homem era o o grande descobridor do Possível. Nunca essa invenção precária teve nenhum outro objetivo em milhões de espécies do que descobrir aquilo que ultrapassou sua própria espécie, talvez o meio de mudar sua espécie – uma espécie brilhante e sem lei. Depois de redescobrir um milhão de anos na grande e compassada noite, um homem ainda era algo a ser inventado. Foi a invenção de si mesmo, onde tudo ainda não estava dito e feito.

E então, e então… um ar singular, uma luminosidade incurável, estava começando a encher seus pulmões. E se fôssemos uma fábula? E quais são os meios?

E se essa luminosidade ela mesma fosse o meio?

Uma grande e majestosa libertação a todas as nossas bárbaras solenidades.

Assim, havíamos meditado no coração de nossa antiga floresta (nas Guianas), enquanto ainda hesitávamos entre improváveis flocos de ouro e uma civilização que nos parecia bastante tóxica e obsoleta, por mais matemática que fosse. Mas outras matemáticas estavam fluindo em nossas veias, uma equação ainda não formada entre esse mundo gigantesco e um pequeno ponto repleto de um ar leve e imensos presságios.

Foi nesse ponto que encontramos  a Mãe, nessa intersecção do antropóide redescoberto e do “algo” que acionara essa invenção inacabada momentaneamente enredada em uma máquina dourada. Pois nada havia terminado, e nada havia sido inventado, realmente, que incutisse paz e amplitude neste coração de nenhuma espécie.

E se o homem ainda não tivesse sido inventado? E se ele ainda não fosse sua própria espécie?

Uma pequena silhueta branca, a doze mil milhas de distância, solitária e frágil em meio a uma horda espiritual que decidira de uma vez por todas que o meditativo e prodigioso iogue era o apogeu da espécie, estava buscando pelos meios, pela realidade desse homem que por um momento acredita ser ele mesmo o soberano dos céus ou soberano de um mecanismo, mas que é muito provavelmente algo completamente diferente de suas glórias espirituais ou materiais. Um outro ar, mais leve, pulsava naquele peito, livre de seus céus e de seus mecanismos pré-históricos. Outra epopeia estava começando. Matéria e Espírito se encontrariam, então, numa terceira posição FISIOLÓGICA que talvez fosse finalmente a posição do Homem redescoberto, o que por tanto tempo lutou e sofreu em busca de se tornar sua própria espécie? Ela era o grande Potencial no início do homem. Mãe é a nossa fábula se tornando realidade. “Tudo é possível” foi seu primeiro sésamo aberto.

Sim, Ela estava em meio a uma “horde” espiritual, pois o pioneiro de uma nova espécie precisa sempre lutar contra o melhor da antiga: o melhor é o obstáculo, a armadilha que nos prende em seu antigo atoleiro de ouro. Quanto ao pior, sabemos que é o pior. Mas então percebemos que o melhor é apenas o lindo focinho do nosso pior, a mesma velha fera defendendo a si mesma, com todas as suas garras de fora, com sua santidade ou suas engenhocas eletrônicas. A Mãe estava lá para algo mais.

“Algo mais” é ameaçador, perigoso, perturbador – é bastante insuportável para todos aqueles que se assemelham com a velha fera. A história do “Ashram” de Pondicherry é a história de um antigo clã ferozmente apegado a seus privilégios “espirituais”, enquanto outros se agarravam aos músculos que os tornaram reis entre os grandes símios (macacos). Está armado com toda a piedade e toda a razoabilidade que tornou o homem lógico tão “infalível” entre seus irmãos menos cerebrais. O cérebro espiritual é provavelmente o pior obstáculo para as novas espécies, assim como os músculos do velho orangotango para esse estranho frágil que já não subia tão bem nas árvores e sentava-se, pensativo, no centro de uma luminosidade duvidosa. Não há nada mais piedoso do que a velha espécie. Não há nada mais legítimo. A Mãe estava buscando pelo caminho da nova espécie tanto contra todas as virtudes do velho quanto contra todos os seus vícios ou leis. Pois, na verdade, “Algo mais” … é algo mais.

Nós pousamos lá, um dia em fevereiro de 1954, tendo emergido de nossa floresta guianesa e um certo número de perigosos becos sem saída;  nós batemos em todas as portas do velho mundo antes de chegar àquele ponto de impossibilidade absoluta onde era realmente necessário embarcar em outra coisa ou, de uma vez por todas, colocar uma bala no cérebro desse macaco ligeiramente superior. A primeira coisa que nos impressionou foi essa exótica Notre Dame,  com seus incensos queimando, suas efígies e suas prostrações em branco imaculado: uma Igreja. Nós quase pulamos no primeiro trem naquela mesma noite, indo direto para o Himalaia, ou o para o diabo. Mas permanecemos perto da Mãe por dezenove anos. O que foi, então, que poderia ter nos mantido lá? Não havíamos deixado Guiana para nos tornarmos pequenos santos de branco ou para entrar em alguma nova religião. “Eu não vim à terra para fundar um ashram; essa teria sido uma meta pobre, na verdade ”, escreveu ela em 1934. O que tudo isso significa, então, esse “Ashram” que já estava nomeado como proprietário de um grande negócio espiritual, e essa frágil e pequena silhueta no centro da todos esses adoradores zelosos? Na verdade, não há melhor maneira de sufocar alguém do que adorá-lo: ele paralisa sob o peso da adoração, o que, além disso, dá ao adorador a reivindicação de propriedade. “Por que você quer adorar?” Ela exclamou. “Você tem que se tornar (em vez disso)! É a preguiça de se tornar que faz uma adoração. Ela queria tanto fazer com que eles se tornassem esse “algo mais”, mas era muito mais fácil adorar e sossegadamente permanecer o que se era. Ela falou para ouvidos surdos. Ela estava muito sozinha neste ‘ashram’. Pouco a pouco, os discípulos enchem o lugar, então eles dizem: é nosso. É “o Ashram”. Somos “os discípulos”. Em Pondicherry, assim como em Roma e em Meca. “Eu não quero uma religião! Um fim para as religiões!” exclamou ela. Ela debateu e lutou no meio deles – então Ela estava prestes a deixar esta Terra como mais um santo ou iogue, sepultada sob prestígio, a “continuadora” de uma grande linhagem espiritual? Ela tinha setenta e seis anos quando nós pousamos lá, uma faca no nosso cinto e uma maldição pronta em nossos lábios.

Ela adorava desafios (provocações) e não detestava a irreverência.

Não, ela não era a “Mãe do Ashram de Pondicherry”. Então, quem era Ela? …  Nós a descobrimos passo a passo, como se descobre uma floresta, ou melhor, como se luta com ela, facão na mão – e depois se derrete, ama, de tão sublime que se torna. A Mãe cresceu sob a nossa pele como uma aventura de vida e morte. Por sete anos nós lutamos com ela. Era fascinante, detestável, poderosa e doce; sentimos vontade de gritar e morder, fugindo e sempre voltando: “Ah! Você não vai me pegar! Se você pensa que eu vim aqui para te adorar, você está errada!”. E ela riu. Ela sempre ria. Tivemos nossa barriga cheia de aventuras, pelo menos: se você se perder na floresta, ficará deliciosamente perdido ainda assim com a mesma pele velha nas costas, enquanto aqui, não há mais nada em que se perder! Não é mais apenas uma questão de se perder – você tem que MUDAR sua pele. Ou morrer. Sim, mude de espécie. Ou torne-se mais um pequeno adorador repugnante – o que não estava nos nossos planos. “Somos os inimigos de nossa própria concepção do Divino”, ela nos disse um dia com seu pequeno sorriso malicioso. O tempo todo – ou por sete anos, de qualquer forma – nós lutamos com nossa concepção de Deus e da “vida espiritual”: era tudo tão confortável, pois nós tínhamos um “símbolo” supremo disso ali mesmo. Ela nos deixava fazer como quiséssemos, Ela até mesmo abriu todos os tipos de pequenos céus em nós, junto com alguns infernos, já que eles andam juntos. Ela até abriu a porta em nós para uma certa “libertação”, que no final foi tão enfadonha quanto a eternidade – mas não havia lugar algum para onde sair: ERA a eternidade. Nós estávamos presos por todos os lados. Não havia nada além desses 4m2 de pele, o último refúgio, do qual queríamos fugir por cima ou por baixo, pela Guiana ou pelos Himalaias. Ela estava esperando por nós ali, no final de nossas piruetas espirituais ou não tão espirituais. A matéria era sua preocupação. Levamos sete anos para entender que Ela estava começando lá, “onde os outros iogas terminam”, como Sri Aurobindo já havia dito vinte e cinco anos antes. Era necessário ter coberto todos os caminhos do Espírito e todos aqueles da Matéria, ou em todo caso, um grande número geograficamente, antes de descobrir, ou simplesmente entender, que “algo além” era realmente Algo Além. Não era um Espírito melhorado nem mesmo uma Matéria melhorada, mas … poderia ser chamado de “nada”, tão contrário que era a tudo que conhecemos. Para a lagarta, uma borboleta não é nada, não é nem mesmo visível e não tem nada em comum com os céus das lagartas nem com a matéria da lagarta. Então lá estávamos nós, presos em uma aventura impossível. Não se volta de lá: é preciso atravessar a ponte para o outro lado. Então, um dia, naquele sétimo ano, enquanto ainda acreditávamos nas liberações e nos Upanishads reunidos, realçado com algumas gloriosas visões para aliviar o lugar comum (que permanecia espantosamente comum), enquanto ainda estávamos considerando “a Mãe do Ashram” mais ou menos como uma super-dirigente espiritual (dotada, porém, de um sorriso desarmante, mas sempre tão provocativo, como se ela estivesse zombando de nós, então nos amando em segredo), Ela nos disse: ‘Eu tenho a sensação de que TUDO o que nós vivemos, TUDO o que soubemos, tudo o que fizemos foi uma perfeita ilusão … Quando tive a experiência espiritual de que a vida material é uma ilusão, pessoalmente achei tão maravilhosamente linda e feliz que foi uma das mais belas experiências da minha vida, mas agora é toda a estrutura espiritual como a vivemos, que está se tornando uma ilusão! – Não é a mesma ilusão, mas uma ilusão muito pior. E eu não sou um bebê: estou aqui há quarenta e sete anos agora!”. Sim, ela tinha oitenta e três anos de idade. E naquele dia, deixamos de ser “o inimigo de nossa própria concepção do Divino”, pois todo esse Divino foi despedaçado – e finalmente encontramos a Mãe. Esse mistério que nós chamamos de Mãe, pois Ela nunca deixou de ser um mistério até o seu nonagésimo quinto ano, e ainda hoje, nos desafia do outro lado de uma parede de invisibilidade e nos mantém tropeçando totalmente no mistério – com um sorriso . Ela sempre sorri. Mas o mistério não está resolvido.

Talvez esta AGENDA seja realmente um esforço para resolver o mistério na companhia de um certo número de iconoclastas fraternos.

Onde, então, estava “a Mãe do Ashram” em tudo isso? O que é mesmo “o Ashram”, se não um museu espiritual das resistências a Algo Mais. Eles estavam sempre – e ainda hoje – recitando sua catequese sob uma pequena bandeira: eles são os donos da nova verdade. Mas a nova verdade está rindo em suas faces e deixando-os abandonados à beira de sua pequena lagoa estagnada. Eles estão sob a ilusão de que a Mãe e Sri Aurobindo, vinte e sete ou quatro anos depois de suas respectivas partidas, poderiam continuar se repetindo – mas então eles não seriam a Mãe e Sri Aurobindo! Eles seriam fósseis. A verdade está sempre em movimento. É com aqueles que ousam, que têm coragem e, acima de tudo, coragem para quebrar todas as efígies, para desmistificá-los, e ir REALMENTE para a conquista do novo. O “novo” é doloroso, desanimador, não se parece com nada que sabemos! Não podemos erguer a bandeira de um país não conquistado – mas isso é o que é tão maravilhoso: ele ainda não existe. Nós devemos FAZÊ-LO EXISTIR. A aventura não foi esculpida: é para ser esculpida. A verdade não é aprisionada e fossilizada, “espiritualizada”: é para ser descoberta. Nós estamos em um nada que devemos forçar a tornar-se algo. Estamos na aventura da nova espécie. Uma nova espécie é obviamente contraditória às antigas espécies e às pequenas bandeiras do já conhecido. Não tem nada em comum com os cumes espirituais do velho mundo, nem mesmo com seus abismos – o que poderia ser deliciosamente tentador para aqueles que já tiveram o suficiente dos cumes, mas tudo é o mesmo, em preto ou branco, é fraternal acima e abaixo. ALGO MAIS é necessário.

“Você está consciente dos seus limites?” Ela nos perguntou pouco tempo depois da pequena operação de demolição espiritual que ela havia passado. ‘Não? Bem, torne-se consciente de suas células, e você verá que isso dá resultados TERRESTRES. ”Para alguém tornar-se consciente das células? … Foi uma operação muito mais radical do que cruzar o Maroni com um facão na mão, pois afinal de contas árvores e cipós podem ser cortados, mas o que não pode ser tão facilmente descoberto são o avô e a avó e todo o pacote atávico (adquirido ou transmitido por atavismo – biologia), sem mencionar as camadas animal e vegetal e mineral que formam um húmus abundante sobre essa pequena e pura célula abaixo de seu programa genético milenar. Os avôs e as avós crescem novamente como capim-miúdo, juntamente com todos os velhos hábitos de estar com fome, com medo, adoecer, temendo o pior, esperando pelo melhor, que ainda é o melhor de um velho hábito mortal. Tudo isso não é desenraizado nem aprisionado tão facilmente quanto as “liberações” celestiais, que deixam o abundante húmus em paz e o corpo para sua decomposição habitual.

Ela tinha vindo para desbravar um caminho através disso tudo. Ela era A Antiga da evolução que veio criar uma nova fenda no velho e tedioso hábito de ser homem. Ela não gostava de repetições tediosas, Ela era a aventureira por excelência – a aventureira da terra. Ela estava arrancando para o homem o grande Possível que já estava batendo ali, em sua clareira primitiva, que ele acreditava ter ficado momentaneamente preso com algumas máquinas. Ela estava desenraizando uma nova Matéria, livre, livre do hábito de ser inexoravelmente um homem que se repete ad infinitum, com algumas melhorias no caminho de transplantes de órgãos ou trocas monetárias. De fato, Ela estava lá para descobrir o que aconteceria depois do materialismo e depois do espiritualismo, esses irmãos gêmeos pródigos. Porque o Materialismo está morrendo no Ocidente pela mesma razão que o Espiritualismo está morrendo no Oriente: é a hora da nova espécie. O homem precisa despertar, não apenas de seus demônios, mas também de seus deuses. Uma nova Matéria, sim, como um novo Espírito, sim, porque ainda não conhecemos nem um nem outro. É a hora em que a Ciência, como a Espiritualidade, no final de suas estradas, devem descobrir o que a Matéria REALMENTE É, pois é realmente lá que um Espírito ainda desconhecido para nós está para ser encontrado. É uma época em que todos os “ismos” da velha espécie estão morrendo: “A era do Capitalismo e dos negócios está chegando ao fim. Mas a era do comunismo também passará … “É a hora de uma pequena e pura célula QUE TERÁ REPERCURSSÕES TERRESTRES, infinitamente mais radicais do que todas as nossas panacéias políticas e científicas ou espiritualistas.

Esta fabulosa descoberta é toda a história da AGENDA. Qual é a passagem? Como é o caminho aberto para a nova espécie? … Então, de repente, lá, do outro lado desse velho hábito milenar – um hábito, nada mais que um hábito! – de ser como um homem dotado de tempo e espaço e doença: uma geometria inteira, perfeitamente implacável e “científica” e médica; do outro lado … nada disso! Uma ilusão, uma fantástica ilusão médica e científica e genética: a morte não existe, o tempo não existe, a doença não existe, nem existe “cicatriz” e “longe” – outra forma de estar EM UM CORPO. Por tantos milhões de anos nós vivemos em um hábito e colocamos nossos próprios pensamentos do mundo e da Matéria em equações. Chega de leis! A matéria é LIVRE. Pode criar um pequeno lagarto, um esquilo ou um papagaio – mas já criou papagaios suficientes. Agora é ALGO MAIS… se quisermos.

A Mãe é a história da Terra livre. Livre de seus papagaios espirituais e científicos. Livre de seus pequenos ashrams também – pois não há nada mais persistente do que aqueles papagaios em particular.

Dia após dia, durante dezessete anos, Ela sentou conosco para nos contar sobre sua odisseia impossível. Ah, quão bem agora entendemos por que Ela precisava de um “fora-da-lei” e um herege incorrigível como nós para compreender um pouco de sua odisseia impossível no “nada”. E quão bem agora entendemos sua infinita paciência conosco, apesar de todas as nossas revoltas, que em última análise foram apenas as revoltas da antiga espécie contra si mesmas. A revolta final. “Não é uma revolta contra o governo britânico que qualquer um pode facilmente fazer. É, de fato, uma revolta contra toda a natureza universal!”, Sri Aurobindo proclamara cinquenta anos antes. Ela ouviu nossas queixas, nós fomos embora e voltamos. Não queríamos mais disso e queríamos ainda mais. Era infernal e sublime, impossível e a única possibilidade neste velho,  asfixiante mundo. Era o único lugar para onde se podia ir neste mundo mecanizado, de arame farpado, onde Cincinnati é tão cheia e poluída quanto Hong Kong. A nova espécie é o último lugar livre na Prisão generalizada vigente. É a última esperança para a terra. Como ouvimos sua fraca voz vacilante que parecia retornar de longe, longe, depois de haver atravessado espaços e mares da mente para deixar suas pequenas gotas de palavras puras, cristalinas, caírem sobre nós, palavras que fazem você enxergar. Ouvimos o futuro, tocamos a outra coisa. Era incompreensível e ainda cheio de outra compreensão. Isso nos iludiu frustrou por todos os lados, e ainda era deslumbrantemente óbvio. A “outra espécie” era realmente, radicalmente outra, e no entanto, estava vibrando interiormente, absolutamente reconhecível, como se fosse AQUILO que tínhamos procurado de era em era (desde a antiguidade), AQUILO que havíamos invocado através de todas as nossas iluminações, uma após a outra, em Tebas como em Eleusis como em todos os lugares em que temos trabalhado duramente e sofrido na pele de um homem. Era por AQUILO que estivemos aqui, por esse Supremo Possível na pele de um homem, finalmente. E então a voz dela ficou cada vez mais e mais frágil, sua respiração começou a ofegar como se Ela tivesse que percorrer distâncias cada vez maiores para nos encontrar. Ela estava tão sozinha para bater contra as paredes da antiga prisão. Muitas garras estavam ao redor. Oh, nós teríamos nos livrado tão rapidamente de todo esse fiasco para voar com Ela para o futuro do mundo. Ela era tão pequena, curvada, como se esmagada sob o fardo “espiritual” que todas as antigas espécies circundantes mantinham amontoado sobre ela. Eles não acreditavam, não. Para eles, Ela tinha noventa e cinco anos e muitos dias. Alguém pode se tornar uma nova espécie sozinho? Eles até mesmo resmungavam com ela: eles tinham o suficiente desse insuportável vislumbre que estava trazendo seus assuntos sórdidos para a luz do dia. O Ashram estava lentamente se fechando sobre ela. O velho mundo queria fazer uma nova e pequena Igreja de ouro, agradável e quieta. Não, ninguém queria TORNAR-SE. Adorar era muito mais fácil. E então eles enterram você, solenemente, e o assunto está resolvido – o caso está encerrado: agora, ninguém precisa se incomodar mais a não ser para imprimir algumas auréolas fotográficas para os peregrinos a esse pequeno e vigoroso negócio. Mas eles estão enganados. O real negócio acontecerá sem eles, a nova espécie voará em seus rostos – já está voando na face da terra, apesar de todos os seus ismos em preto e branco; está explodindo através de todos os poros dessa velha e desgastada terra, que já teve o suficiente de falsificações e impostores – sejam pequenos céus ilusórios ou pequenas máquinas bárbaras. É a hora da REAL Terra. É a hora do REAL homem.  Nós estamos todos indo para lá – se ao menos pudéssemos conhecer o caminho um pouco …

Nem mesmo esta AGENDA é um caminho: é uma suave e pequena vibração que se apodera de você em qualquer curva – e então, aí está, você está NELA. “Outro mundo no mundo”, disse Ela. É preciso captar a suave pequena vibração, é preciso fluir com ela, em um nada que seja como o único algo no meio desse grande desastre. No início das coisas, quando ainda nada era permanente, quando ainda não havia esse hábito do pelicano, ou do canguru, ou do chimpanzé ou do biólogo do século XX, havia um pouco de pulsação que dava o ritmo – uma deliciosa vertigem, uma alegria na grande aventura do mundo; uma pequena centelha nunca aprisionada que continuou batendo de espécie em espécie, mas como se sempre nos escapasse, como se sempre estivesse além, além – como se fosse algo para se tornar, algo a ser jogado para sempre como o único grande jogo do mundo; um sabe-lá-o-quê que deixou este broto de homem pensativo no meio de uma clareira; um pequeno “algo” que pulsa, pulsa, que continua a respirar debaixo de cada pele sob a qual já foi colocado – como nossa respiração mais profunda, nosso ar mais leve, nosso arzinho de nada – e continua indo, indo. Precisamos agarrar o pequeno e suave sopro, a breve pulsação de coisa alguma. Então, de repente, no limiar de nossa clareira de concreto, nossa cabeça começa a girar incuravelmente, nossos olhos piscam para outra coisa, e tudo é diferente, e tudo parece sobrecarregado de significado e de vida, como se nunca tivéssemos vivido até aquele exato minuto. Então pegamos o rabo do Grande Possível, estamos no caminho sem rumo, radicalmente no novo, e fluímos com o pequeno lagarto, o pelicano, o grande homem, fluímos por toda parte em um mundo que perdeu sua velha pele separadora e sua pequena bagagem de hábitos. Começamos a ver de outra forma, a sentir de outra forma. Abrimos o portão em uma clareira inconcebível. Apenas uma pequena e suave vibração que te leva embora. Então começamos a entender como isso PODE MUDAR, qual é o mecanismo – um pequeno e suave mecanismo e tão milagroso que não se parece com nada. Começamos a sentir a maravilha de uma pura e pequena célula, e que uma centelha de alegria seria o suficiente para virar o mundo do avesso. Estávamos morando em um pequeno aquário pensante, estávamos morrendo em um velho hábito engarrafado. E então, de repente, tudo é diferente. A Terra está livre! Quem quer liberdade?

Tudo começa em uma célula.

Uma pequena célula pura.

A Mãe é a regozijo da liberdade.

Feliz Agenda!

SATPREM

19 de agosto de 1977

 [K1]O DESTINO DO HOMEM

 [K2]Guiana é o lugar de origem de Satprem

 [K3]Árvore similar à seringueira

 [K4]Possível, com “P”, aparece de forma recorrente denotando um “estado a ser alcançado”.

 [K5]Satprem e outro discípulo

 [K6]A Mãe

 [K7]Satprem se referindo aos discípulos do ashram

 [K8]Satprem se refere à (desnecessária) exuberância do ashram

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