“Este Self é um self de Conhecimento, uma luz interior no coração; ele é o ser consciente comum a todos os estados de ser, e move-se nos dois mundos. Ele se torna um self de sonho e passa além deste mundo e suas formas de morte. […]. Existem dois planos desse ser consciente, este mundo e os outros; um terceiro estado é seu lugar de junção, o estado de sonho e, quando ele se coloca nesse lugar de sua junção, vê os dois planos de sua existência, este mundo e o outro mundo. Quando dorme, ele toma a substância deste mundo onde tudo é, e ele mesmo desfaz e constrói por sua própria iluminação, por sua própria luz; quando dorme, esse ser consciente torna-se luminoso com sua própria luz. […] Não há estradas nem coches, nem alegrias e prazeres, nem lagoas, fontes ou rios, mas ele os cria por sua própria luz, pois ele é aquele que faz. Pelo sono, ele rejeita seu corpo e, sem sono, vê aqueles que dormem; por seu sopro de vida preserva estre ninho inferior e se lança, imortal, para fora de seu ninho; imortal, ele vai aonde quer, o Purusha dourado, o Cisne solitário. Eles dizem “Só o país do despertar é dele, pois as coisas que vê quando está desperto, estas são as únicas que vê quando dorme”; mas lá, ele é sua própria luz.
Brihadaranyaka Upanisad, IV. 3.7, 9-12, 14.
Muitas vezes apreendemos os sonhos como fenômenos irreais.
A pergunta que se segue é: Por que o estado de vigília é apreendido como real pelo corpo mental e os sonhos como irreais? O que difere um do outro?
Algumas características dos sonhos são expostas a seguir:
(i) os sonhos têm um fim e perdem sua validade quando passamos de um estado de consciência a outro, que é nosso estado “normal”, nosso estado “mais comum”;
(ii) o sono é algo evanescente, sem antecedentes e sem continuação
(iii) em geral, são também incoerentes e/ou sem coerência suficiente para o estado de vigília (estado desperto)
Talvez, se a cada vez que voltássemos a sonhar, voltássemos a um mesmo ponto e, conseguíssemos vivenciar uma experiência contínua, os sonhos ganhariam um caráter totalmente diferente para nossa razão, tal qual é experenciado nossa superfície de vida: para nossa mente, ela aparece como um encadeamento de sequências constantes
(iv) observamos também que a consciência-sonho parece ser privada desse controle que a consciência desperta exerce (com limites) sobre as circunstâncias da vida. No mundo dos sonhos, se aparente um automatismo maior, um impulso de criação do subconsciente no qual nenhuma força-consciência pode guiar
A próxima pergunta: Nossos sonhos são totalmente irreais e sem significado ou são uma forma, imagem registrada, transcrição ou representação simbólica de coisas que são reais?
Para isso, vamos analisar um pouco os estados de consciência de SONHO e SONO
No estado de sono, a consciência mental cessa suas atividades (cessamos as vrttis – salvo em uma técnica específica yogi chamada nidra, na qual ingressamos com consciência no estado de sono. Falaremos mais adiante sobre ela) , entrando em estado jacente, mas a consciência interior não é suspensa, ela entra em novas atividades. Porém, somente algumas atividades são mantidas na memória. Aquelas mantidas na memória são aquelas atividades que se localizaram muito próximo à superfície.
No estado de sono, a consciência mental deixa de atuar e começa a atuar o subconsciente, que também é um receptáculo para nossas experiências oníricas.
Além do estado de consciência do subconsciente, existe um outro estado construtor de sonhos: o subliminar.
O subliminar (descrito nas Upanisads como Self do Sonho) é uma parte subconsciente em nós, intermediária entre a consciência e a inconsciência pura, que através dessa camada superficial envia suas formações.
“Nosso self subliminar não é, como nosso ser físico de superfície, um produto da energia do Inconsciente, ele é um ponto de encontro da consciência que emerge pela evolução e da consciência que desceu do alto pela involução. Há nele uma mente interior, um ser vital interior, um ser físico-sutil ou interior maior do que nosso ser e nossa natureza exteriores (…) Aqui, há uma consciência que te um poder de contato direto com o universal, ao contrário dos contatos, na sua maioria indiretos, que nosso ser de superfície mantém com o universo mediante a mente sensorial e os sentidos”
Sri Aurobindo, 1939
No estado de sono, o Self seria a Supraconsciência, pois, em geral, todas as experiências mentais ou sensoriais cessam quando entramos nessa supraconsciência.
Os estados de manifestação em sânscrito são:
- corpo físico denso→ Sthula
- corpo sutil → Śuksma
- corpo causal→ Karana
- estado transcendental/ conhecimento puro (samadhi)→ Mahakarana
Quais são as formas e técnicas de se navegar pelo mundo do Sono e dos Sonhos?
Para quem deseja se aprofundar no mundo dos sonhos, os yogis tibetanos tem umas vasta literatura com técnicas e experiências para atravessar os estados de sonho e sono e, afirmam que, tornar-se consciente e mestre dos sonhos é uma das mais poderosas ferramentas para se atravessar a morte.
Existe uma técnica muito conhecida dentro do Yoga, conhecida como Yoganidrā, na qual passamos do estado desperto ao estado de sono, com consciência.
Patanjali descreve como 5, nossas atividades mentais:
योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः॥२॥
Yogaścittavṛttinirodhaḥ||2||
वृत्तयः पञ्चतय्यः क्लिष्टाऽक्लिष्टाः ॥ १.५ ॥
प्रमाणविपर्ययविकल्पनिद्रास्मृतयः ॥ १.६ ॥
vṛttayaḥ pañcatayyaḥ kliṣṭā’kliṣṭāḥ || 1.5 ||
pramāṇaviparyayavikalpanidrāsmṛtayaḥ || 1.6 ||
1.5 Os padrões de pensamentos densos e sutis (vrittis) se enquadram em cinco categorias, das quais algumas são coloridas (klishta) e outras são descoloridas (aklishta).
1.6 Os cinco tipos de padrões de pensamento para testemunhar são: 1- conhecimento correto (pramana), 2- conhecimento incorreto (viparyaya), 3- fantasia ou imaginação (vikalpa), 4- o objeto vazio que é o sono profundo (nidra) e 5- recordação ou memória (smriti).
Em geral, no estado de Sono, se cessam todas as vrttis (atividades mentais), porém, o nidra é uma vrtti específica acessada e atuada com determinada técnica, na qual se ingressa conscientemente no estado de Sono sem Sonhos.
Na contemporaneidade, em práticas de Hatha Yoga, o nome yoganidrā vem sendo utilizado para designar o relaxamento final da prática que, embora não seja considerado yoganidrā, auxilia na prática de ingresso consciente ao Estado de Sono.
Yoganidrā significa “sono do Yoga”. É um estado de sono profundo consciente.
Ao contrário do estado meditativo, no qual permanecemos no estado desperto de consciência e gentilmente focamos a mente, enquanto permitimos que padrões de pensamentos, emoções, sensações e imagens surjam e desapareçam; no yoganidrā, deixamos o estado desperto, passamos pelo estado do sonho e vamos para o sono profundo, permanecendo sempre acordados.
Dessa forma, é possível acessar as profundezas das nossas experiências de avidez e aversão e procurar se manter equânime frente à elas, uma vez que, agora, se entra de forma consciente, observando um estado profundo de consciência, geralmente inconsciente para mente. Por isso que se considera a prática de yoganidrā eficaz para purificar os saṁskāras, as impressões profundas, que são a força motriz por trás do karma.
E assim, retornamos com uma análise de Sri Aurobindo, na Vida Divina:
“É mesmo possível tornar-se inteiramente consciente no sono e seguir, do começo até o fim ou ao longo de vastas extensões, as etapas de nossa experiência de sonho; até chegar a um breve período de repouso luminoso e sereno, sem sonhos, que é o verdadeiro restaurador de energias da natureza desperta, e então retornar pelo mesmo caminho à consciência de vigília. É normal, quando passamos assim de estado a estado, deixar as experiências precedentes nos escaparem; ao retornar, apenas as mais vívidas ou mais próximas do estado de vigília superficial serão lembradas: mas isso pode ser remediado – é possível reter mais ou desenvolver o poder de voltar atrás na memória, de sonho em sonho, de estado em estado, até que o todo esteja uma vez mais diante de nós. Um conhecimento coerente da vida do sono, embora difícil de adquirir ou preservar, é possível”
Referências Bibliograficas
- GAUDAPA KARIKA, Shankara Bhasya; (Tradução Swami Nikhilananda) Mandukya Upanishad; 1949, disponível em <https://www.wisdomlib.org/hinduism/book/mandukya-upanishad-karika-bhashya/d/doc143593.html>. Acesso em 8 de julho de 2022
- Mandukya Gaudapada Shankara Upanishad;disponível em <http://yogananda.com.au/upa/gaudapada_karika.html#1.10>. Acesso em 8 de julho de 2022
- Chandogya Upanisad
- JNANESHVARA BHARATI, S.; “Four levels and three Domains of Consciousness in Yoga”. Disponível em <https://www.swamij.com/levelsdimensions.htm>. Acesso em 2 de julho de 2022
- AUROBINDO,S (Tradução de Ayramani) . “A Vida Divina” 1a. Edição; Auroville, Indi; 2018.
- GAUDAPADA KARIKA, comentários de PANOLI (Tradução de Vidyavachaspati) V. Mandukya Upanishad
- GAUDAPA KARIKA, comentários de KRISHNANDA, tradução de Swami. Mandukya Upanishad
- TINÔCO, Carlos Alberto. As Upanishads São Paulo: Ibrasa, 1996


