Penteando os cabelos de casa

Para a construção do banheiro, ao buscar os materiais disponíveis aqui na zona, o telhado de piaçava não é feito tão perto daqui. Curiosamente, a montanha do Pé de Serra é muito fértil e sem muitas pedras e a Piaçava gosta de terrenos mais “difíceis”.  Uma cidade vizinha fabrica os telhados. Comprar pentes de Piaçava prontos saía mais caro do que comprar telhas. 

Uma parte minha buscou pensar na forma de construir mais sábia e selvagem possível os cabelos do banheiro. O desafio era: como? Material existe. Existem palmeiras lindas aqui dentro, porém, não havia visto nenhuma casa com telhado de palha desde que cheguei. A maioria já era feita de eternite. Diogo também me comentou que nunca havia construído com palha. 

Um dia fui visitar um vizinho em sua casa, em um dia de produção de farinhas. Um homem aqui do Pé de Serra é um ser que me chama a atenção desde sempre. Ele se chama Carlão. Carlão é um senhor beeem alto, bemmm magro, as marcas de suas bochechas sugadas para dentro. Sua pele e olhos são muito negros e o branco de seu olho muito branco. 

Enquanto ele mexia a farinha na chama de ferro quente, ele o fazia de uma forma que parecia uma grande dança cósmica. Eu já sabia, enquanto observava os movimentos de seus braços, que seria a melhor farinha que comeria em minha vida. Acho que fiquei meditando sobre seu movimento por cerca de uma hora. 

Enquanto isso, Grazi e Maiqueli pegavam punhados de farinhas com as pontas dos dedos e colocavam na boquinha de Xoxó. 

O beiju corria solto para lá e para cá. 

Nesse dia, depois que terminamos a produção de farinha, depois que terminamos a produção de farinha de mandioca, fomos na casa de Maiqueli, Ninha e Gabriel. O marido de Maiqueli estava construindo sua própria casa e, papo vai, papo vem, pensei: “é agora, vou descobrir sobre as palhas”. Perguntei a eles se eles sabiam fazer. Os telhados de palha. 

Ninguém sabia. Gabriel, o mais velho de lá havia vivido em casa de palha, de Sapê e Catulé, porém, foram seus criadores quem as construiu. 

Gabriel me comentou de uma pessoa da região que sabia fazer, chamava-se Biola. Porém, Biola vivia atrás da montanha e me comentaram que era bem difícil encontrá-lo. 

Comecei minha busca por Biola. Foi assim que Dona Ceridalva me disse:  “Busque por Ozeas, Teti, Ozeas também sabe fazer, tenho certeza e ele vive por aqui”.

A partir daí, a informação correu aqui no ramal, de que eu procurava Ozeas para fazer um telhado de palha. E, outro dia, enquanto visitava a casa de outra amiguinha de Xoxó, me apontaram a estrada e gritaram: “Olha Teti, é Ozeas, você não buscava por ele? Vai lá falar com ele”.

Conversamos e no dia sequinte Ozeas foi em casa, muito tímido e me disse: “Aqui no seu terreno tem Catulé”, me apontou mata adentro. E fomos. Ele foi abrindo uma trilha com seu facão, trilha há muito tempo abandonada dentro dos cultivos de cacau. Pouco tempo depois, encontrou a Catulé. 

A observei com o coração latindo alto. Parecia uma rainha. Deve ter uns 50 metros de altura, mas do meu ponto de vista, naquele instante, pareciam 200 ou 300 com sua coroa gigante. Haviam bromelias gigantes, “coroas”, mais pequeninhas, as princesas ao redor. Pensava sempre nas bromélias como grandes rainhas. 

Foi depois desse dia que descobri a Catulé, a grande Mãe. Haviam folhas suas de 8 metros de comprimento. Muito pesada, com cada vertigem muito afiada. 

Ozeas colheu uma folha da Catulé bebê, somente para me mostrar como se fazia. E fomos caminhando até sua casa. Por dentro da mata, me mostrava um cipó cravo e o “Pau-sangue”- é uma árvore que sai uma resina vermelha de dentro. 

Cheguei em sua casa, brinquei com três meninas que naquele mesmo momento começar a brincar com meu cabelo e fazer tranças. 

Curiosamente, foi na mesma época que tive piolhos nos cabelos e havia realizado um tratamento para eles. Me pareceu muito curioso que estava recebendo um outro tratamento logo em seguida. 

E que iria realizar um grande penteado nas Catulés, nos dias seguintes. 

Nossos cabelos são nossos rios de pensamentos, são nosso céu, são um acontecimento.

Nos mesmos tempos, cantava por Iroko, sem saber o que era. 

Descobri que Iroko é o “tempo”, e que é invocado quando nos aparecem “piolhos na cabeça”, quando  queremos resolver as coisas rápido demais. 

É beeeeeemmm devagarinho, areia por areia, que uma montanha toma forma.

Publicado por portalmãemirra

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