Diferenças entre educação e orientação

Como colaborar para o mundo que sonho? Um mundo fraterno, onde todos os seres possam ser livres e felizes? 

Fiquei muitos anos sonhando em transformar o mundo, tardei a reconhecer que eu precisava, antes que tudo, transformar e curar a mim mesma. O trabalho é árduo e constante. Cada minuto que me conheço mais, percebo o quanto de sentimento ou reações com o mundo externo meu corpo ainda tem. Compreendi que o trabalho exige continuidade, persistência e muita força. 

Em algum momento, senti que o trabalho todo que fazemos não poderia se limitar aos entornos do meu corpo físico. Afinal, em um ecossistema, são trilhões de seres vivos coabitando o mesmo espaço e, eu não existe sem o resto, o resto não existe sem mim, nessa grande teia cósmica chamada universo. Trata-se da percepção de que todo aprimoramento é fisicamente impossível de se realizar individualmente. 

Foi nesse sentido que, ao ser mãe, deparei-me com o mesmo desafio: como é possível que minha filha seja feliz sozinha? 

A entrega do trabalho com a crianças veio com essa ideia luminosa no meu coração: cuidar das crianças, igual a floresta cuida dela: tudo junto. O próximo desafio foi compreender meu papel enquanto educadora, instrutora ou orientadora. 

Quais são as formas de orientar, educar e conceber os seres humanos no planeta?

O propósito da instrução é transferir conhecimento e experiência. Ela se baseia em métodos de aprendizado. 

Educação, por sua vez, tem por fim facilitar o despertar de faculdades que estão latentes em um indivíduo, e envolve aspectos físicos, emocionais, intelectuais, morais e espirituais. 

Projeto Infância Arco-iris no ramal do pé de serra

Assim como uma semente guarda toda a informação de uma árvore, há quem diga que tudo o que sabemos já está guardado nos nossos genes de homo sapiens, que já datam de 300.000 anos e , assim, nada pode ser ensinado: tudo já está guardado como um potencial de se expressar. 

Qual seria meu papel enquanto educadora? 

Pensei em “dar uma mãozinha”, criando um ambiente propício para que faculdades latentes sejam potecializadas e manifestadas. Um espaço brincante, ao ar livre, onde mães, pais , cuidadores e crianças possam reconhecer e usufruir também do seu papel enquanto formadores.

Primeiro passo, nos colocando na posição de aprendiz e também mestres. Todos somos alunos de todos, todos somos mestres em algum momento na vida. 

A primeira pessoa a quem sou grata, foi Livia del Corso. Desde o ensino médio me contando de inúmeras propostas de educação ao redor do mundo, me fazendo questionar sobre a educação especial, a educação multisseriada, formas de brincar ou olhar o mundo. Ela me contou uma vez, sobre formas muito divertidas de aprender a desenhar: por exemplo, ao invés de desenhar uma boca, porque não perguntar a uma criança: como seria um beijo molhado? Ou senão, um beijo triste? 

Ela foi a primeira a nos orientar, a mim e a Kaliah, sobre uma sequência pedagógica que envolvesse o brincar. O brincar como forma de investigação. 

Paola Castro, com toda sua experiência em inúmeras escolas, trouxe na prática brincadeiras sensoriais e toda sua experiência com educação infantil. Eram caixas de papelão, asas de pássaros gigantes, espaços brincantes mais do que brinquedos. Afinal, espaços brincantes mais crianças brincam juntas. Apesar de adorar seus espaços brincantes, creio que o que mais me aprendi com Pao, foi ensinar música e magia para um neném.

Debora Marcussi, grande mãe. Foi a primeira referência de educação em casa que vi na vida e, sua filha, Rita, de 11 anos é um dos seres mais incríveis que já conheci. Cada vez que ia em sua casa, via Debora pacientemente sentada ao lado de Rita, conduzindo das formas mais diversas os ensinos sobre Anatomia, Ciências ou Cultura, trazendo através de dinâmicas, danças, culinária, filmes, visitas, crochês, bonecas, museus, os ensinamentos para Rita. Na casa delas, sempre depois da porta, há uma mesa baixa, uma mesa de centro e, nessa mesa, um livro, sempre muito propício para algum momento da minha vida. Antes de engravidar, foi através delas que vi o livro de Alex Grey, a expressão em pintura de toda a teia cósmica, onde me marcou muito a pintura de uma mulher parindo “energia”.  Em outros eventos, uma resposta sobre tarot ou sobre bruxaria me aparecia de forma igualmente mágica sobre a mesa de centro de sua casa.  Marcelo Amazonas, pai de Rita, é um grande encantado pelas vibrações. Há alguns anos, me contava sobre as vibrações musicais e alguma forma de visualizar em desenho como os harmônicos se comportavam. Das últimas vezes, era sobre as vibrações da água que ele se encantava. E de forma ou de outra, passava a Rita, com muito entusiasmo seus recentes aprendizados. 

Depois de alguns anos projetando esse acontecimento  finalmente em novembro, tivemos a primeira reunião de pais e filhos aqui do Pé de Serra e Barrocão e, no último fim de semana, a primeira atividade de recreação e artes. A primeira reunião de pais, estava Debora, Marcelo, dona Ceridalva- a vizinha mais generosa que conheço, Anelita- mãe de Maicon, conhecedora de crochês, de masserados, cada machucado de Maria, Anelita sabia a cura com algumas ervas;  Craudiana- mãe de Igor; Gabriel – um homem jovem carioca de 27 anos, muito gentil, humilde, doce e corajoso, há um ano trabalhando arduamente em sua roça pra tirar aquela amêndoa de cacau…. “primorosa”. Onde se pode sentir o amor e o trabalho constante para chegar nesse resultado. 

Compartilhamos os nossos sonhos enquanto pais e também as preocupações, direcionamentos que cada um tinha vontade de fazer. 

Debora me perguntou ao final do encontro, como eu me senti. Percebi que assim, como um selva, que demora tantos anos para crescer, porém é constante e contínuo..que o trabalho aqui seria assim. De grãozinho em grãozinho, de pouquinho em pouquinho. Com persistência e continuidade. Sem desistir nenhum instante. Como um tronco de uma árvore, que dá estrutura, aguenta os vendavais, as folhas caindo e re-crescendo. 

No último encontro, já vieram mais mães e crianças. Mariete, mãe de Pietro tem um dom nato para educação e auxiliou muito no primeiro encontro. 

A atividade era simples: reconhecer troncos, galhos, flores na natureza e logo em seguida, montar arranjos artísticos.

A arte tem esse poder: o poder de criar e colocar ordem e harmonia na matéria. Através da arte, podemos nos reconhecer enquanto criadores, e fazendo beleza. 

Convidar as crianças pra buscar objetos na natureza é um convite pra olhar mais atentamente a beleza que os circula a cada dia. 

E foi assim, brincando, com cores e fazendo arte. 

De pouquinho em pouquinho, braços abertos, o primeiro passo foi dado. 

Publicado por portalmãemirra

Somos um núcleo de convivência em comunidade e desenvolvimento da consciência, e nossas iniciativas têm como pilares a filosofia prática do Yoga Integral, os princípios da Educação Integral (propostos por Mirra Alfassa, a Mãe) e os preceitos de sustentabilidade da Agroecologia, Permacultura e saberes ancestrais da terra dos povos originários.

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