A família de sangue e a família do propósito

Ultimamente, uma gratidão profunda tem me visitado: gratidão pelas pessoas através das quais a vida chegou até mim. Meus pais.

É impressionante perceber como o corpo não começa em nós. Antes de sermos “eu”, já existia uma longa travessia: histórias, escolhas, feridas, virtudes, medos, coragem, sobrevivência, amor. O DNA não guarda lembranças como a mente guarda, mas carrega uma memória biológica da vida: predisposições, sensibilidades, caminhos abertos e também desafios a serem iluminados.

E talvez aí more uma das perguntas que mais direcionam o funcionamento da vida: somos apenas a expressão daquilo que herdamos, ou há em nós uma consciência capaz de observar, transformar e dar novo destino ao que recebemos?

Eu tenho, sim, a predisposição a acreditar que existe uma consciência que observa.

Na linguagem do Yoga, poderíamos chamar essa consciência de Cit — ou Chit —, a consciência pura, o princípio luminoso que testemunha. Citta, por sua vez, é o campo da mente: aquilo que percebe, registra, interpreta, lembra, deseja e se modifica.

Seria, então, a expressão de Purusha na multiplicidade: a consciência testemunha presente em cada forma de vida. Quando a mente se esquece da consciência que observa, Purusha parece tomar a forma da identidade, confundindo-se com o corpo, com a história, com os pensamentos, com os padrões herdados e com as experiências vividas. É nessa identificação que nos esquecemos do todo.

E então surge a sensação de que a alma se aproxima exatamente das condições que precisa encontrar — não para repetir tudo, mas para reconhecer, agradecer, curar e evoluir.

Uma consciência que, ao despertar, começa a se perguntar: qual é a minha origem?

Como se a consciência, ao se esquecer de sua própria vastidão, passasse a se confundir com uma identidade: eu sou meu corpo, eu sou minha história, eu sou minha linhagem, eu sou meus padrões, eu sou minhas dores, eu sou minhas conquistas.

Mas talvez a vida espiritual comece justamente quando uma pergunta silenciosa se abre dentro de nós: quem é que observa tudo isso?

Quem observa o corpo?
Quem observa a herança?
Quem observa a emoção?
Quem observa o medo, o amor, o impulso, a repetição?
Quem sou eu antes de me confundir com tudo aquilo que passa por mim?

E então nasce a sensação de que a alma se aproxima exatamente das condições que precisa encontrar. Não para repetir tudo, mas para reconhecer, agradecer, curar e evoluir. Como se cada família, cada corpo, cada traço, cada limite e cada dom fossem também uma escola de consciência.

Quando olho para meus pais, hoje, sinto isso: não apenas origem, não apenas herança próxima, mas caminho. Sinto que, diante de Deus, talvez pais e filhos sejam também irmãos em desenvolvimento, almas se apoiando mutuamente na longa aprendizagem do amor.

E então, além da família de sangue, a vida vai revelando outras irmãs e irmãos.

Seres que não carregam o mesmo DNA, que vieram de outras casas, outras histórias, outras matérias — e ainda assim, em algum ponto misterioso, nossas consciências se reconhecem. Como se houvesse uma família que nasce da carne, e outra que nasce do propósito.

Em certas fases da vida, quando nos percebemos mais voltados à matéria, ao fazer, ao sustentar, ao resolver, algumas presenças chegam como espelhos do sutil. Como se algumas pessoas se tornassem portais: não no sentido de nos levar para longe da vida, mas de nos devolver ao coração da vida. Ao presente. Ao espírito. Àquilo que permanece quando a identidade se aquieta.

Há presenças que nos recordam que nem tudo precisa ser segurado pelas mãos. Que há uma inteligência mais silenciosa, mais ampla, mais sutil, que também conduz.

Há presenças que nos espelham a compaixão viva. A compaixão como uma das expressões mais belas do amor: não um sentimento frágil, mas uma força que nasce quando o coração não se fecha diante do outro. Uma força que percebe, acolhe, se inclina, escuta e permanece.

Em tempos em que tantas vezes somos conduzidos pelo eu, encontrar seres que espelham compaixão é lembrar que o amor ainda pode ser direção.

Talvez nenhum de nós carregue, individualmente, todas as virtudes o tempo inteiro. Mas juntos, algo se completa. Um lembra o outro. Um sustenta o outro. Um devolve ao outro aquilo que, por alguns instantes, havia sido esquecido.

E nesses encontros nos reconhecemos: não como seres separados, mas como parte de um único corpo maior, feito de sangue, espírito, memória, matéria, propósito e amor.

Hoje agradeço aos meus pais, que me deram a vida.

E agradeço às irmãs e irmãos de caminho, que nos ajudam a recordar quem somos — para além da forma, para além da história, para além da identidade — no lugar silencioso onde a consciência observa, o coração se abre e o amor se torna presença.

Publicado por portalmãemirra

Somos um núcleo de convivência em comunidade e desenvolvimento da consciência, e nossas iniciativas têm como pilares a filosofia prática do Yoga Integral, os princípios da Educação Integral (propostos por Mirra Alfassa, a Mãe) e os preceitos de sustentabilidade da Agroecologia, Permacultura e saberes ancestrais da terra dos povos originários.

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